O cenário é nebuloso, mas o futuro da música aponta para o céu. Num ano que começou com cerco fechado à pirataria on-line, aumentando os debates sobre propriedade intelectual e compartilhamento, as plataformas de streaming _em que as músicas podem ser ouvidas sem obrigação de transferi-las para o computador_ se fortalecem e estão mudando os conceitos de criação e a maneira de se consumir e difundir música.

Artistas “mainstream” e independentes, além do público e da indústria, se beneficiam das novas práticas. Colaboração e recriação são palavras-chave nesse cenário, afirma Dave Haynes, vice-presidente de negócios do SoundCloud, que superou o MySpace e tornou-se a maior plataforma on-line de áudio, com 11 milhões de usuários. As possibilidades vão além de serviços como Rdio, iCloud e Spotify, em que o usuário paga um preço fixo para acessar sua biblioteca musical direto da nuvem _conceito em que os dados ficam armazenados em servidores, permitindo que as pessoas acessem essas informações a partir do aparelho que quiserem, sem necessidade de downloads.

“A música do futuro vai se parecer com aquela produzida no passado, antes do surgimento da indústria fonográfica”, diz Haynes. “Era uma experiência social que acontecia nos teatros, salões e reuniões. A música mudava naturalmente a cada execução e recriações eram comuns. Não era um produto fechado, como os vinis, CDs e MP3s. Os atuais remixes e criações colaborativas digitais retomam esse sentido.”

O trunfo do SoundCloud é funcionar não apenas como meio de divulgação e interação entre artistas e público, mas também como um banco de sons para criação coletiva. O serviço permite que, além de ouvir, um usuário carregue até 120 minutos mensais de música gratuitamente para a nuvem. É possível postar criações próprias e recriações em cima de outras faixas sonoras – com ou sem licença.
A banda de Brasília Móveis Coloniais de Acaju: “Para independentes, streaming gratuito é ótimo negócio. Conseguimos fidelizar nosso público”

A proposta já tem resultados artísticos. A cantora britânica Imogen Heap convocou fãs para compartilharem sons como batidas de porta, água corrente, vozes e ruídos de ruas movimentadas. Imogen escolheu seus preferidos e compôs a primeira faixa de seu próximo álbum, compartilhando o resultado na mesma plataforma. Ao final da pesquisa, o CD físico “Heapsongs” deve conter as faixas que a cantora está postando gratuitamente na nuvem e vendendo pelos canais tradicionais de Mp3 conforme são produzidas. “Para bandas independentes, streaming gratuito é um ótimo negócio. Conseguimos divulgar nosso trabalho, fidelizar nosso público e ainda fazer colaborações e experimentos”, diz Fabrício Ofuji, da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Para ele, a pirataria dos fãs é revertida em divulgação e sustento financeiro. “Conseguimos atrair públicos maiores para nossos shows.”

Na década passada, artistas conhecidos internacionalmente, como David Bowie, Garbage e Björk, já haviam disponibilizado samples de suas faixas na internet. Mas a maioria dos grandes nomes usa a nuvem apenas para divulgação. Paul McCartney escolheu o SoundCloud para oferecer o primeiro single de seu novo disco, “Kisses on the Bottom”. Madonna, que lança o álbum “MDNA” em março, divulgou o single “Give Me All Your Lovin” e postou uma vinheta cantando parabéns em aniversário.

No Brasil, há exemplos similares entre os artistas mais populares. Presente em todos os canais oficiais de vendas on-line, o NX Zero alimenta sua nuvem com sobras de estúdio, passagens de som e brincadeiras. “Isso gera um laço, uma comunicação com o fã, que vai até mesmo gerar interesse para uma futura compra de um item físico ou virtual”, afirma Thaiana Hamilton, gerente de contas digitais da Universal Music, gravadora da banda paulistana.

Como acontece nas redes sociais e em mecanismos de buscas, essas novas plataformas interessam à indústria uma vez que fornecem perfis de gostos e hábitos de usuários. “Serviços de streaming que permitem a criação de playlists individuais e se tornam um banco de dados precioso para as gravadoras. É um termômetro do que o público quer. Isso reproduz o mecanismo existente desde o surgimento dos DJs, nas rádios independentes americanas. Foram elas que popularizaram figuras como Elvis Presley, posteriormente massificadas pela indústria”, diz Patricia Rocha Junqueira, mestre em comunicação pela PUC-MG e pesquisadora de música digital. “Essas plataformas também servem como um tubo de ensaio criativo onde artistas com menos recursos apresentam ideias, tendências e fórmulas que serão apropriadas, em menor ou maior grau, pelas majors [grandes gravadoras] no futuro.”

Mas nem tudo é festa nesse cenário. O Grooveshark, concorrente do SoundCloud, foi bloqueado na Alemanha por ter ferido direitos autorais – em outros países, será pago. Segundo Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas e do Creative Commons no Brasil, os modelos de streaming e os cyberlockers [serviços de armazenamento de arquivos] estão na mira dos detentores de direitos autorais. “A ação judicial que [em janeiro] retirou o Megaupload do ar vai testar os limites da responsabilidade dos sites sobre o conteúdo postado por terceiros”, afirma Lemos. Ele cita o processo movido pelo conglomerado de mídia Viacom contra o YouTube, que alegou não ser responsável pelo conteúdo postado pelos usuários, e venceu. “A questão agora é se a isenção aplicada ao YouTube vai estender-se aos cyberlockers e streamings. Dependendo do resultado, eles podem ser fortemente afetados”.

Fonte: Jornal Valor Ecônomico