Um beijo, uma companhia para pedalar e até mesmo uma calcinha autografada. O mundo das recompensas de crowdfunding está cada vez mais criativo. Com o crescimento dessas plataformas no último ano, cresceu também a diversidade dos projetos hospedados nos sites de financiamento coletivo e das contrapartidas oferecidas aos colaboradores.

Para Rafael Zatti, criador do site Crowd O Quê e especialista em crowdsourcing, é essencial que as recompensas sejam parte fundamental do projeto. “(Tem que ser) algo que seja resultado dele, e não apenas um brinde ou uma lembrança”, afirma.

Um bom exemplo foi o kit oferecido aos financiadores do jogo de RPG Violentina (que esteve na nossa matéria sobre “economia geek” na semana passada). Quem doasse R$ 300 ao projeto, inspirado no universo criado pelo diretor Quentin Tarantino, recebia uma maleta caracterizada prata, com fundo falso, que incluía charuto, ficha de pôquer, revólver, um livro especial com uma capa feita à mão pelo próprio autor, dois baralhos customizados e mais alguns mimos.

O projeto foi indicado pela sócia-fundadora do Movere, Vanessa Oliveira, como um dos mais criativos em matéria de contrapartida. Ela mesmo adquiriu uma maleta personalizada. “A recompensa é uma forma do incentivador levar o projeto pra casa. Então o ideal é sempre disponibilizar uma recompensa que faça com que a pessoa curta de fato aquele trabalho”, explica.

Quem também se destacou na criação de prêmios foi o bloco carnavalesco Fogo & Paixão. Os colaboradores que contribuíram com R$ 100 para ver o bloco ir às ruas em fevereiro receberam uma calcinha autografada pelo cantor Wando, apoiador e garoto-propaganda do projeto. A iniciativa ficou em 1º lugar no ranking das recompensas mais criativas organizado pelo Catarse.

Com uma contribuição menor, de R$ 40, os apoiadores do projeto jornalístico “Cidades para Pessoas” tinham direito a um bike-anjo – um ciclista que vai até a casa do colaborador para traçar a melhor rota da casa dele até o trabalho e ainda faz o trajeto por dois dias seguidos, até que ele se sinta seguro para pedalar sozinho. “Acredito que a recompensa em si representa, para o apoiador, o sentimento de pertencer, de ter feito parte do projeto, por isso ressaltar sempre o lado afetivo é aconselhável”, afirma Luís Otávio Ribeiro, do Catarse.

Bem imaterial – Prêmios simbólicos, que reflitam o espírito do projeto, são tão importantes quanto produtos. No Benfeitoria, site de crowdfunding voltado a inciativas transformadoras, um dos projetos financiados, o “Dia das Crianças no Santa Marta”, oferecia como recompensa uma visita guiada ao mirante do Morro de Santa Marta no Rio de Janeiro, para ver o sol nascer.

Doando uma quantia um pouco maior, o colaborador teria o nome escrito em um cartaz sobre o Pula-Pula da festa dedicada às crianças da comunidade carioca, com os dizeres “Obrigado XXXX! Você está fazendo nossas crianças darem pulos de alegria”. “É sempre interessante que a recompensa tenha, de alguma forma, relação com o projeto. Essa intercontextualidade faz a diferença na hora de comunicar a campanha”, explica Dorly Neto, um dos fundadores do Benfeitoria.

Seguindo esse princípio, os idealizadores do espetáculo “As Três Velhas” ofereceram a todos os que contribuíssem com R$ 10 para ajudar a peça a estrear uma nova temporada, um beijo da atriz Maria Alice Vergueiro, diretora e a protagonista de um dos hits da internet brasileira, o curta “Tapa na Pantera”.

Menos é mais – Quanto ao que não pode ser feito na hora de pensar nas recompensas para financiar os projetos, os criadores afirmam: supervalorizar uma contrapartida ou oferecer algo comum; colocar o resultado final – como o DVD, no caso de um filme – em valores muito altos; disponibilizar muita coisa em uma mesma recompensa.

Luís Otávio Ribeiro, do Catarse, dá a instrução “Less is more! Foque em criar valor e menos no ‘estilo promoção’”.

Dicas assimiladas, é só partir para a criação. Mas não esqueça de ter certeza que depois de financiado o projeto, a recompensa chegue ao colaborador. “Muitos proponentes simplesmente esperam muito tempo para entrar em contato com os apoiadores para falar sobre as recompensas. Isso gera insegurança nos apoiadores e, em geral, acaba refletindo nas próximas contribuições”, conclui Zatti.

Fonte : Cultura e Mercado
Raul Perez