SÃO PAULO – Os anos 2000 foram a década perdida da indústria da música. Nos Estados Unidos, a meca do setor fonográfico mundial, as vendas caíram de US$ 14,6 bilhões para menos da metade em dez anos. Até 2014, elas deverão diminuir ainda mais, para então se estabilizarem em torno de US$ 5,5 bilhões, segundo a consultoria Forrester Research. Discos, CDs, álbuns duplos são todas palavras que agora pertencem ao passado. Nas ruínas dessa indústria, porém, uma nova surgiu: a da música eletrônica.

Mais do que um gênero musical, a música eletrônica tornou-se um negócio com 19,5 milhões de consumidores só no Brasil, onde já movimenta R$ 2,5 bilhões ao ano, segundo levantamento da Rio Music Conference (RMC), maior feira de negócios do setor na América Latina. Na conta, entram desde os ingressos de casas noturnas e cachês pagos a DJs à venda de bebidas e patrocínio de empresas a eventos e boates.

“A indústria fonográfica faliu, ruiu. Mas, ao mesmo tempo, a música eletrônica foi se fortalecendo e mostrou que há uma nova maneira de se trabalhar com música”, diz Guilherme Borges, um dos organizadores do RMC. “Ao contrário da velha indústria, a música eletrônica nunca dependeu da venda de CDs ou das rádios FM. Ela é digital e focada em apresentações ao vivo, nas festas e casas noturnas”, explica.

No Brasil, o polo da música eletrônica é Santa Catarina. Em um raio de 250 quilômetros, incluindo Florianópolis, Balneário Camboriú, Blumenau e Itajaí – região que ganhou o apelido de “Ibiza brasileira” -, há cerca de 50 clubes. Muitos são chamados de “super clubs”, já que têm capacidade para mais de 5 mil pessoas. Alguns reúnem mais de 10 mil.

Um deles é o Green Valley, construído há quatro anos em Balneário Camboriú por quatro empresários gaúchos. “Trabalhávamos na noite havia 17 anos, promovendo shows de bandas de rock a sertanejo”, diz Eduardo Philipps, um dos sócios. “Mas há uns seis anos vimos que o negócio estava encolhendo e que o terreno da música eletrônica crescia. Resolvemos então comprar um terreno e construir o Green Valley.”

A casa para até 11 mil pessoas tem 2 mil metros quadrados de construção, duas pistas de dança, três lagoas artificiais e jardim com 70 coqueiros. Em 2011, segundo Philipps, a Green Valley faturou R$ 5,5 milhões. Cerca de 1 milhão de pessoas passaram pelo lugar no ano passado.

Ibiza. De olho no potencial do mercado da “e-music” brasileira, empresas estrangeiras também viraram suas antenas para o País. O Space Ibiza, uma das maiores boates da badalada ilha espanhola, procurou um sócio no Brasil para abrir uma franquia em Balneário Camboriú.

Encontrou a catarinense GH Mais Brasil, que está investindo R$ 6 milhões na Space B, terceira casa da empresa fora de Ibiza, e a primeira nas Américas (as outras franquias estão em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e no Egito). O projeto é gigantesco: o clube está sendo erguido em um terreno de 158 mil metros quadrados e terá capacidade para até 10 mil pessoas.

“A região tem tudo o que é preciso para um bom negócio: belezas naturais que atraem turistas e a cultura de vida noturna”, diz Herlon Hamm, sócio do GH Mais Brasil. Essa cultura, segundo ele, começou na década de 70, quando foi aberta uma boate chamada Baturité. “Os turistas vinham para as praias e à noite iam para a boate, que ficou aberta por 30 anos. Isso é raro no negócio da noite”, afirma.

Na leva do Space B, outros dois clubes espanhóis ensaiam o desembarque no País: Privilége e Amnesia, também de Ibiza. Segundo a prefeitura de Balneário Camboriú, as empresas vão construir filiais na cidade. “Os maiores DJs do mundo pedem para tocar aqui”, diz Gustavo Conti, sócio do Warung Beach Club, outro grande clube da região, que fica em Itajaí. O Warung está na beira da praia e tem capacidade para 4 mil pessoas. Mas Conti não revela o faturamento.

“Nesse negócio, ninguém fala quanto ganha ou quanto fatura. E quem fala, mente”, diz Luiz Eurico Hlotz, diretor da 3plus, uma das maiores agências de DJs do mercado nacional, com cerca de 100 nomes em seu catálogo.

A 3plus, assim como acontece no ramo da moda, agencia DJs, marcando apresentações em casas noturnas. Hoje, calcula-se que existam de 2,5 mil a 3 mil casas noturnas no Brasil. Pelo menos mil, segundo estima-se no setor, são casas exclusivas de música eletrônica ou que oferecem apresentações desse estilo pelo menos uma vez a cada 90 dias.

Vodca. A principal fonte de receita para essas casas, no entanto, são as bebidas. Na paulistana D.Edge, que está investindo R$ 5 milhões em uma filial no Rio de Janeiro e em sua segunda casa em São Paulo, as bebidas representam 60% do faturamento, de até R$ 1,4 milhão ao mês, segundo Renato Ratier, fundador da casa aberta em 2003 e com capacidade para mil pessoas.

Em 2011, a venda de bebidas e de alimentos em casas de música eletrônica chegou a R$ 1,07 bilhão – com crescimento de 115% em relação a 2010, conforme a RMC. “A maior parte desse faturamento é bebida, e a vodca é a mais consumida”, diz Ratier.

Atualmente, cerca de dois terços do consumo de vodca e uísque no Brasil acontece em casas noturnas, bares e restaurantes. Sabendo disso – e de olho no crescente mercado da música eletrônica -, empresas de bebidas, como a francesa Pernod Ricard e a cervejaria holandesa Heineken, vêm patrocinando clubes e festas de música eletrônica. Só no ano passado, os patrocínios somaram R$ 460 milhões, 60% mais que em 2010, segundo a RMC. A Pernod Ricard, por exemplo, promoveu no Recife uma festa para 7 mil pessoas e o DJ holandês Tiesto foi a atração principal.

A fabricante de bebidas descobriu o negócio da música eletrônica no Brasil quase por acaso. “Fizemos uma ação com a apresentadora Penélope (ex-MTV) e, em um dos materiais, ela aparecia tocando como uma DJ. Foi a imagem que mais teve retorno. Vimos que tinha algo forte ali e resolvemos investigar”, diz Rafael Souza, gerente de bebidas premium da empresa, fabricante do uísque Ballantine’s.

A Pernod decidiu vincular a marca Ballantine’s à música eletrônica. “Uísque tem posicionamento tradicional, é considerado bebida de gente séria, mais velha. Com a música eletrônica, rejuvenescemos o público.” A estratégia, diz ele, deu certo. “Tivemos um ganho histórico de participação de mercado.” Mas ele preferiu não citar números.

Para a Heineken, além das vendas, há a oportunidade de promover a marca. “A música eletrônica é um fenômeno mundial e tem uma aura internacional. Existe uma identificação com a marca Heineken, que está presente em 170 países”, diz Daniela Cachich, diretora de marcas premium da cervejaria.

No exterior, não só festas e casas noturnas são patrocinadas. O DJ mais badalado da atualidade, o francês David Guetta, é patrocinado pelo energético Burn, da Coca-Cola. Por aqui, onde estima-se haver cerca de 10 mil DJs profissionais, isso ainda está no início. Há profissionais que têm patrocínios técnicos com marcas de equipamentos de som. Mas acredita-se que não deve demorar muito para que as marcas invistam de forma mais comercial nos DJs, uma vez que já há brasileiros ganhando espaço internacionalmente.

Um deles é Gui Boratto, paulista de 38 anos, há 24 anos atuando como DJ. Boratto não confirma, mas DJs brasileiros com carreira internacional, como ele, faturam em média R$ 60 mil ao mês. “Já toquei em mais de 50 países”, afirma. Um dos poucos países onde o DJ não tocou é a China. “Mas vou me apresentar lá este ano”, diz ele, que já tem agenda fechada até o fim de 2013.

Fonte: Lílian Cunha, de O Estado de S. Paulo